14:14

faz tempo. eu lembro como se fosse ontem.
um dia que nao vou esquecer jamais.
minhas mãos suavam, fugia do espelho.
demorei algum tempo pra decidir a roupa,
como se fossem muitas.
jeans e camiseta branca, já era assim.
as fotografias dizem, a máquina fotografica
ainda cabia na bolsa pequena.
lembro que era bem mais magra, cabelo enorme,
uma herpes secando na boca, um brinco
de rodela seca de laranja. eu lembro.
tava ansiosa, nervosa. não olhava nos olhos, tava timida.
não sabia o que dizer, falava sobre muita coisa, mas não dizia nada.
tarde de qualquer dia da semana que ditou meus cinco anos seguintes.
ali eu mal sabia o que ía mudar, não queria pensar, analisar, nada.
eu queria sentir, mas também esconder. tinha medo.
outra ferida aberta me deixaria sem chão. era menina, tava no colegial,
tava sorrindo, tava insegura.
sempre fui insegura, mas ali, a insegurança havia ganhado espaço exclusivo e imenso.
tava insegura, de verdade. desejei aquela tarde desde o primeiro momento
que soube da existencia.
naquele momento soube de verdade que era aquilo que eu queria
por muito tempo da minha vida, quanto eu ainda não sabia.
quis tanta coisa, tive tanto.
viveria naquela tarde de sol por um mes inteiro, mas o relogio
acelera, pessoas mudam, muita coisa acontece...
...
odeio dormir a tarde e sonhar assim. acordei e descobri que nao houve
absolutamente nada. nada.

18:41

sempre me vi como muitas.
quando recebia uma pergunta de qualquer outra pessoa,
me via tendo mtas respostas e mtos argumentos diferentes,
mas que eu via razões concretas. sempre foi assim, uma tortura.
parecia estar aos pedaços. raciocinio rapido e conclusões rápidas
nunca me fizeram bem. pareço em guerra comigo msma,
e assim a transformação do pensamento é rápida demais
que quase ninguem compreende. enfim, muitas. céus,
'ontem' msmo me via casada, hoje nao quero ninguem pra
dividir minha vida por inteiro. e sempre foi assim, msmo.
de um dia para o outro. acordo com necessidade de mudança.
ontem, isso tudo me incomodava. hoje, nao mais. sei lá, to sei lá.
to 'qual será?'. ontem me vi como voluvel, hj, encontrei um certo
desprendimento dos conceitos enraizados.
assim, sempre. de ontem pra hoje, muitas. qualquer, haja imprevisto.
de repente, o avesso. aos pedaços.

16:50


esse vazio que, na verdade, nao me cabe.
é coisa muita. sei lá, vazio que nao pertenceu,
que doeu, mas um vazio que nunca esteve cheio, completo.
como pode doer vazio unico e sozinho, vazio dominante,
nunca estivera completo, vazio nao devia doer.
mas doeu, dói. nada. problema nao foi o nada,
foi manter esperança de qualquer coisa, menos o nada.

12:51

em que esquina msmo nós nos desencontramos?

23:04

parecia até dançar. imaginou um palco e interpretou
seu maior papel.
a peça era antiga, 'batida'. do camarote, ela narrava com antecedencia.
passos marcados, falas ensaiadas. tava ate bonito.

sem surpresa, previsivel, morno.
nao nascera pra plateia. e as costas que lhe couberam nesse momento, apenas.

21:59

...
foi quando eu acordei e... silencio. o dia tava cinza.
ventava gelado, clima de solidão.
olhei pelos comodos e vi que haviam entrado
em casa, jogaram tudo no chão. com raiva.
até a porta dos armarios da cozinha levaram. tava tudo
no chão, tudo. revirado, remexido. tudo no chão e tudo bagunçado.
olhei pro céu e aquela imensidao de preto pálido. algumas arvores
secas, um vazio nas calçadas. nao imaginava nem por onde começar
a arrumar aquilo tudo, sozinha. se chovesse tudo piorava, a casa era
velha, a calha entupia mto fácil, entrava agua pelo lustre de alguns comodos.
torcia só pra que nao chovesse tbm. tava cinza, gelado, vazio, bagunçado.. molhado
não, né?
pra andar, tinha que achar chao vazio pra pisar,
tava tudo no chão, sujo, quebrado, despedaçado, desmontado... bagunçado, demais, demais.
como pode entrarem e lidarem assim com tudo? jogando no chao, pisando por cima.. ah, que
sujeira, tenha dó!
logo que fui começar a arrumar, sentei e pensei "tá, vou arrumar, sentar, limpar, montar, etc, etc. mas podem entrar o destruirem tudo outra vez e nao sei se vou ter tempo de colocar
tudo em ordem com cuidado como farei agora...", desembolsei uma grana e contratei pedreiros.
mandei subir muros de concreto firme, muros altos, reforçados.
e so depois começarei a colocar em ordem o que ficou no chão. no chao msmo.