tenho mania do impossível.
quero o que nao me cabe.
um nó, sentimento estranho,
sensação confusa, respiração ofegante,
do peito pra garganta.
a navalha que teima em me estilhaçar,
meu sangue imundo ladeira abaixo,
minha carne de feridas que nao cicatrizam.
ver tudo acontecer e ter que esconder os berrs, dói.
que drene o que tiver que drenar,
que escorra ladeira abaixo o sangue que contem o seu suor.
tornar-se consciente me deu uma serenidade sem igual,
mas de maneira alguma deixou de ser dolorido passar por algumas situações.
tenho os pés no chão, sentido aguçado e uma curiosidade que ainda
me matará.
faz tempo. eu lembro como se fosse ontem.
um dia que nao vou esquecer jamais.
minhas mãos suavam, fugia do espelho.
demorei algum tempo pra decidir a roupa,
como se fossem muitas.
jeans e camiseta branca, já era assim.
as fotografias dizem, a máquina fotografica
ainda cabia na bolsa pequena.
lembro que era bem mais magra, cabelo enorme,
uma herpes secando na boca, um brinco
de rodela seca de laranja. eu lembro.
tava ansiosa, nervosa. não olhava nos olhos, tava timida.
não sabia o que dizer, falava sobre muita coisa, mas não dizia nada.
tarde de qualquer dia da semana que ditou meus cinco anos seguintes.
ali eu mal sabia o que ía mudar, não queria pensar, analisar, nada.
eu queria sentir, mas também esconder. tinha medo.
outra ferida aberta me deixaria sem chão. era menina, tava no colegial,
tava sorrindo, tava insegura.
sempre fui insegura, mas ali, a insegurança havia ganhado espaço exclusivo e imenso.
tava insegura, de verdade. desejei aquela tarde desde o primeiro momento
que soube da existencia.
naquele momento soube de verdade que era aquilo que eu queria
por muito tempo da minha vida, quanto eu ainda não sabia.
quis tanta coisa, tive tanto.
viveria naquela tarde de sol por um mes inteiro, mas o relogio
acelera, pessoas mudam, muita coisa acontece...
...
odeio dormir a tarde e sonhar assim. acordei e descobri que nao houve
absolutamente nada. nada.
sempre me vi como muitas.
quando recebia uma pergunta de qualquer outra pessoa,
me via tendo mtas respostas e mtos argumentos diferentes,
mas que eu via razões concretas. sempre foi assim, uma tortura.
parecia estar aos pedaços. raciocinio rapido e conclusões rápidas
nunca me fizeram bem. pareço em guerra comigo msma,
e assim a transformação do pensamento é rápida demais
que quase ninguem compreende. enfim, muitas. céus,
'ontem' msmo me via casada, hoje nao quero ninguem pra
dividir minha vida por inteiro. e sempre foi assim, msmo.
de um dia para o outro. acordo com necessidade de mudança.
ontem, isso tudo me incomodava. hoje, nao mais. sei lá, to sei lá.
to 'qual será?'. ontem me vi como voluvel, hj, encontrei um certo
desprendimento dos conceitos enraizados.
assim, sempre. de ontem pra hoje, muitas. qualquer, haja imprevisto.
de repente, o avesso. aos pedaços.

